Publicado em Leitura

Review Livro “Afirma Pereira” – Antonio Tabucchi

            O autor conta que Pereira surgiu aos poucos para ele. Em um primeiro momento Pereira não era nem o nome dele na verdade, mas com o passar do tempo a história foi tomando corpo, se desenvolvendo até que finalmente se tornou um livro.

tabucchi_1
Antonio Tabucchi. Foto: esquerda.net

           

           Pereira é um escritor jornalista, que trabalhou como repórter policial durante 30 anos, e agora coordena a sessão cultural do jornal Lisboa, para o qual traduzia textos literários e escrevia elogios fúnebres a outros escritores. Ele mora em Lisboa, e em função do clima da estação absurdamente quente, ele está sempre ofegante, suando e tomando litros e litros de limonada cheios de açúcar. E o fato de estar bem acima do peso não ajudava em nada, muito menos seus problemas de coração e pulmão.

         Pereira começa o livro com uma indagação sobre a ressurreição da carne, ele definitivamente acredita na ressurreição da alma, mas não vê propósito em seu corpo gorducho e desprovido de saúde voltar à vida. Nesse ponto já me parece que ele está tentando emergir, mas não consegue. Sua esposa havia morrido há alguns anos, e ele continua sentindo a mesma falta dela como se fosse ontem, na verdade ele conversa com uma foto dela todos os dias. Eles não tiveram filhos, ele se pega pensando no quão bom seria ter alguém de sua família nesse momento, mas não se arrepende de não ter pedido isso a sua esposa que sempre teve saúde frágil. De qualquer maneira ele pensa muito na morte, de maneira que a vida regrada e sempre igual não lhe causa nenhum mal, parece que ele se obriga a ficar alienado para não ter qualquer obrigação de viver novamente.

arquivoexibir1
Edicão de 2001

            Ele passa diversos momentos do livro no café Orquídea, estabelecimento muito próximo à redação. Um lugar simples que servia apenas omelete de ervas e salada de peixe. Pereira sempre comia as omeletes. A redação que ele trabalhava, na verdade era uma sala em um prédio, o qual era mantido por uma zeladora que Pereira nunca gostou muito, ela adorava frituras e estava sempre de mal humor. Pereira suspeitava que ela fosse uma espiã da polícia.

               O ambiente em que a história se desenvolve é tenso, politicamente falando. Era 1938, estavam em meio à guerra Espanhola, muita censura, ditadura, várias catástrofes acontecendo, mas para Pereira, parecia que tudo estava correto, ele continuava vivendo da mesma maneira todos os dias como se estivesse em outro lugar ou época. Ele se mostra, não chega nem a ser indiferente a palavra perfeita, realmente parece que ele não se inclui no contexto ao seu redor, para ele nada estava acontecendo, nenhuma manifestação, nem contra nem a favor do governo e ele continua assim até quase o final do livro, é interesse ver a construção do seu eu interior e como pouco a pouco ele vai acordando e se posicionando.

                   Padre Antônio é um amigo de longa data, Pereira tentou conversar com ele sobre a questão da ressurreição, mas até o padre ficou irritado com a pergunta fútil dele em meio a tanto caos. Dessa maneira, Pereira volta para casa sem entender nada. Até que certo dia, ele encontra uma tese sobre a morte e se interessa a ponto de tentar descobrir quem o tinha escrito. O autor é um rapaz jovem, recém-formado, chamado Monteiro Rossi, Pereira logo pensa em chama-lo para escrever os elogios fúnebres do jornal. Eles se encontram na Praça Alegria, onde está acontecendo um festival cultural, Pereira se sente tocado por aquilo, se lembra como ele era quando jovem, nesse momento sua consciência dá alguns sinais de vida.

                Ele acaba contratando Monteiro Rossi como estagiário, um rapaz nervoso, muito preocupado com dinheiro, foi logo confessando que a tese que Pereira havia lido tinha sido em parte copiada de outra pesquisa. Mesmo assim Pereira o contrata, paga o que consumiram no local e ainda lhe dá um adiantamento, ele não entende porquê faz isso, tenta se convencer que deve ser por algum tipo de carência paterna, e por Rossi ter perdido os pais há pouco tempo, mas não é suficiente, conforme a trama se desenrola é possível perceber que na verdade Rossi o lembrava de sua própria juventude, da força, inconformidade e determinação, coisa que já não sentia mais. Nesse mesmo dia, Rossi apresenta Pereira à Marta, uma jovem por que ele está apaixonado. A primeira impressão de Pereira é que ela é muito independente e articulada para uma jovem daquela idade.

             Rossi entrega textos a Pereira, ele os classifica como impublicáveis pelo cunho político, mas ao invés de jogá-los fora, Pereira os guarda em uma pasta e continua pagando Rossi do próprio bolso, pois não quer apresenta-lo a seu editor, de quem não gostava muito. Pereira parece não querer enxergar, mesmo protegendo o rapaz, que Rossi e Marta estão envolvidos na luta política.

              Após um tempo, Rossi pede ajuda de Pereira para abrigar um primo dele chamado Bruno, rapaz espanhol que está envolvido com a revolução e vai à Lisboa para se esconder, pois era visível que seu passaporte era falso e se fosse pego provavelmente seria morto. Pereira não entende o motivo, mas ajuda sem pestanejar. Ele parece que quer negar, mas está gostando do envolvimento indireto na revolução. Pereira os leva a uma pensão que conhece pela discrição, paga as diárias e os deixa lá.

1280px-Vista_de_Lisboa
Lisboa. Foto: Wikipedia

                Após, Pereira vai à Coimbra, pois não ia há muito tempo, e seu amigo Silva sempre o convidava para ir para lá. A personalidade de Pereira está mudando, ele se sente mais independente, sente vontade de sair da sua cidade e explorar. Ao chegar lá, eles conversam sobre política, mas acabam discordando e se afastando um pouco, de forma que Pereira decide ir embora logo no dia seguinte. Logo após seu retorno, ele se encontra com Rossi, este confessa que está com sérios problemas e parece muito preocupado, mas some novamente.

             Passados alguns dias, Pereira resolve ligar para o seu cardiologista porque seus ataques de suor, palpitações e cansaços se tornaram constantes. Seu médico lhe sugere repousar em uma espécie de spa tassolômico por alguns dias para iniciar uma dieta e fazer algumas terapias. Ele pensa ser uma boa ideia, liga para o seu diretor a contragosto, este concorda, deixa as publicações organizadas para as semanas que ficará fora e se vai. Ele até chega a descer do trem em uma praia e se banha, coisa que não fazia desde que era jovem, essas atitudes espontâneas não eram características de sua personalidade, mas as estava apreciando.

                 Quando chega ao SPA, gosta da limpeza e requinte, descansa um pouco e depois sai para dar um passeio com seu novo médico, Dr. Cardoso, quem iria acompanha-lo durante aquela semana. Pereira o achou muito simpático, ele é francês e logo fez diversas perguntas que deixaram Pereira desconfortável, entretanto ele acaba respondendo todas, ainda não sabia o motivo. Durante o jantar, Dr. Cardoso se mostrou muito interessado nos pensamentos de Pereira. Ele era formado em psicologia com especialização em dietética, Pereira não entende a ligação entre as áreas, mas confessa o que estava pensando sobre a sua vida e sobre a maneira como Rossi vinha se comportando, sobre os acontecimentos e sobre as decisões que tinha tomado em toda sua vida, se estavam realmente corretas ou se tudo tivera sido inútil. De certa forma, ele estava realmente considerando se Rossi e Marta não estavam corretos em lutar, e ele errado.

               Cardoso lhe explica que havia estudado uma teoria que poderia explicar o momento que Pereira estava vivendo. Ele acreditava que a psique humana era reproduzida nas atitudes e condições físicas da pessoa, e que os seres humanos possuem várias almas, uma “confederação de almas”, e que de acordo com um evento vivido, um novo hegemônico passa a “liderar” todas as almas e transforma o modo como a pessoa enxerga a vida e a si mesmo e como age. Realmente aquilo fez sentido para Pereira, porque ele havia passado por mudanças que influenciaram seus pensamentos e atitudes várias vezes durante sua vida e não tinha se dado conta disso, apenas foi deixando a vida passar depois da morte da sua esposa.

           Quando volta a Lisboa, se encontra com Marta para saber sobre Rossi, ela estava completamente diferente, loura, cabelos curtos e pelo menos 10Kg mais magra. Ela atribui a mudança à atual situação, disse que Rossi estava em Alentejo recrutando pessoas para a causa contra o fascismo/nazismo e estava com problemas ainda maiores que os dela. Ela lhe entrega mais um texto, Pereira paga, pensa em despedir o rapaz, mas não consegue.

            Quando volta para a redação, a zeladora comunica que a companhia de telefonia esteve no prédio e grampeou o telefone dele, de maneira que todas as suas ligações passariam pela zeladoria antes de chegar a ele.

             Sendo o jornal Lisboa, o único jornal que ele lia, foi busca-lo e ficou surpreso quando viu que sua tradução de um conto contra o nazismo havia sido publicado, pois segundo Dr. Cardoso era um texto não agradaria seu redator, uma pessoa contrária à causa, mas ele continuava achando que o jornal tinha liberdade de expressão e aquela publicação só confirmava isso. Até que seu editor liga questionando a publicação e o absurdo que era aquele texto na conjuntura atual. A partir daquele momento, todos os textos de Pereira teriam que ser aprovados antes de serem publicados.

como_reutilizar_jornal_velho
Foto: morandojuntos.com

             No dia seguinte ele vai se encontrar com Dr. Cardoso no café Orquídea para o almoço, ele ainda estava pensando sobre a conversa que teve com padre Antônio mais cedo, sobre todas as coisas que o padre havia lhe contato sobre a situação da Europa, inclusive da Igreja. Dr. Cardoso incentiva Pereira a se posicionar mediante o que estava acontecendo, e a ajudar mais Rossi. Além disso, comunica a Pereira que voltaria para a França, Pereira fica arrasado mesmo o doutor dizendo que poderiam sempre conversar.

                Rossi aparece na casa de Pereira mais tarde pedindo abrigo. Ele o acolhe, os dois conversam sobre as atividades de Rossi, ele conta que seu primo Bruno havia sido preso e ele escapado por milagre. Além disso, Rossi entrega uma sacola cheia de passaportes falsos para Pereira, que os esconde muito bem atrás do retrato de sua esposa. No dia seguinte, Pereira vai para redação, compra mantimentos e tenta contatar Marta a pedido de Rossi, mas não consegue. Quando chega em casa, Rossi estava com a aparência um pouco menos miserável, os dois jantam. De repente alguém bate na porta dizendo que é da polícia e tenta entrar. Pereira não vê outra saída a não ser abrir a porta, e quando o faz, encontra 3 homens parados, ele exige ver suas identificações, mas em vão, ao invés disso, eles apontam uma arma para Pereira e entram vasculhando os cômodos em busca de Rossi. Pereira acaba apanhando por resistir. Passados alguns minutos, escutam sons de batidas no quarto, os rapazes saem dizendo que exageraram um pouco na lição e se vão ameaçando a vida de Pereira se contasse aquilo para alguém.

           Pereira vai correndo socorrer Rossi, mas era tarde, o rapaz estava morto. Nesse momento dá para sentir a tristeza e raiva emergindo em Pereira. Ele vai até o café mais próximo liga para o Dr. Cardoso, pedindo para que apenas confirmasse se seu comportamento estava correto e de alguma maneira o médico sabia o que tinha acontecido, e que iria precisar dele às 12h do dia seguinte. Pereira volta para casa, mais determinado do que nunca, escreve sobre tudo o que acabara de acontecer, sobre como aquilo era uma barbaridade opressiva, sobre a ditadura disfarçada e o caos eminente. No dia seguinte vai até a redação, pega todos os textos de Rossi, em seguida se dirige à tipografia do jornal, e entrega seu próprio texto ao encarregado da impressão, que deveria ficar pronta em poucos minutos. O homem dá uma olhada no texto e fica em dúvida se deve ou não incluí-lo na edição. Pereira, por outro lado, se mantém firme e mente para o tipógrafo dizendo que iria ligar para o diretor do jornal, quando na verdade estava ligando para Cardoso.

                   Cardoso atende e rapidamente entende o que deve fazer, quando Pereira passa o telefone para o tipógrafo ele confirma a história, dando o aval para que publicação fosse feita. Pereira sai com a impressão do jornal já acontecendo, volta para casa, faz sua mala, pega o retrato da mulher, escolhe um dos passaportes falsos que mais se adequava e vai embora de Portugal, ele já sabia o que viria pela frente, mas já havia se posicionado.

                  Particularmente eu gostei muito desse livro, no começo ele é meio parado, e dá agonia de ler página após página sobre a alienação de Pereira, mas ao mesmo tempo a vontade de saber o que vai acontecer com ele cresce e o desenrolar da trama é incrível. E demonstra exatamente o sentimento de impotência que sentimos frente à algumas situações. Acho que o texto, por mais que tenha sido escrito em 1993 para uma época específica (meados de 1938) se mostrou atemporal, e pode ser aplicado até nos dias de hoje. Dou nota 9 para a leitura e a recomendo sem dúvidas.

12

Anúncios

Autor:

Ola, sou Marcella, tenho 25 anos, formada em química pela UFSCar e em técnica de alimentos pela Etec Rubens de Farias. Adoro fotografia, viagens, leitura, inovação, tecnologia, e acima disso tudo, Química, seja na cozinha, no cabelo, em produtos, enfim, a química está em tudo! A fé em Deus é o sentimento mais bonito que existe em mim e espero que o conteúdo do blog possa somar em sua vida ;) Obrigada por sua visita, volte sempre!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s